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Como eu uso Inteligência Artificial como parceira de engenharia

fernanda domenicali

fernanda domenicali

engenheira de software · 23 de julho de 2026 · 8 min de leitura

#carreira#produtividade#debugando
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Como eu uso Inteligência Artificial como parceira de engenharia

Quando alguém me pergunta como utilizo Inteligência Artificial no trabalho, normalmente espera ouvir algo relacionado à produtividade. É comum que a conversa caminhe para geração de código, criação de testes, refatorações automáticas ou para a famosa ideia do desenvolvedor "10x". Essas capacidades existem, fazem diferença e também fazem parte da minha rotina, mas, depois de alguns meses utilizando IA praticamente todos os dias, percebi que esse deixou de ser o principal benefício.

A maior transformação aconteceu em outro lugar. Ela mudou a forma como penso sobre problemas, organizo conhecimento, investigo alternativas e tomo decisões técnicas. Em vez de enxergar a IA apenas como uma ferramenta que responde perguntas, comecei a utilizá-la como uma parceira durante todo o processo de engenharia. Essa mudança de perspectiva fez com que ela deixasse de participar apenas da implementação e passasse a acompanhar praticamente todas as etapas do meu trabalho.

Hoje, quando olho para trás, percebo que escrever código é apenas uma pequena parte do que fazemos como engenheiros de software. Antes de qualquer linha ser escrita, existe entendimento de negócio, refinamento, arquitetura, análise de riscos, documentação, observabilidade, incidentes e inúmeras conversas que moldam as decisões técnicas. Foi justamente nesse espaço que a IA passou a fazer mais sentido para mim.

Pensar junto vale mais do que pedir respostas

Existe uma diferença enorme entre perguntar "como faço isso?" e construir uma conversa sobre um problema.

Sempre que participo de um refinamento, uma discussão de arquitetura ou uma investigação técnica, dificilmente abro uma conversa esperando que a IA me entregue uma solução pronta. Na maior parte das vezes, eu já tenho um entendimento inicial do problema, conheço as restrições do negócio, sei quais decisões já foram tomadas pelo time e quais limitações precisam ser respeitadas. O que faço é levar todo esse contexto para a conversa e utilizar a IA para explorar possibilidades.

Ela não decide por mim, não escolhe a arquitetura e muito menos substitui minha experiência. O que ela faz é ampliar meu campo de visão. Em muitos momentos levanta riscos que ainda não haviam aparecido durante a discussão, sugere abordagens diferentes ou simplesmente organiza meu próprio raciocínio de uma forma mais clara. Nem sempre concordo com as sugestões e, para ser sincera, muitas vezes elas estão erradas. Ainda assim, o simples fato de discutir um problema por diferentes perspectivas já melhora significativamente a qualidade das decisões.

Em alguns momentos essa dinâmica até me lembra a ideia do Rubber Duck Debugging, sobre a qual já escrevi aqui no Debugando Ideias. A diferença é que, em vez de apenas organizar meu pensamento enquanto explico um problema, agora também consigo desafiar hipóteses, explorar alternativas e construir novas perguntas durante essa conversa.

No fim das contas, continuo sendo responsável pela decisão técnica. A IA apenas participa do caminho até ela.

Minha memória externa também evoluiu

Quem me acompanha há algum tempo provavelmente já percebeu que gosto de documentar praticamente tudo. Tenho cadernos físicos, faço anotações no iPad, mantenho arquivos em Markdown e sempre gostei da ideia de construir uma base de conhecimento própria.

A IA acabou potencializando esse hábito de uma maneira que eu não esperava.

Hoje praticamente toda reunião importante gera um documento estruturado. Seja um discovery, um refinamento, uma discussão de arquitetura ou até mesmo uma investigação de incidente, quase sempre transformo aquela conversa em um registro organizado. O interessante é que esses documentos deixam de existir de forma isolada e passam a construir contexto ao longo do tempo.

Aos poucos percebi que estava formando uma espécie de commonplace book digital, onde decisões técnicas, aprendizados, dúvidas, riscos e referências ficam conectados. Quando preciso revisitar um projeto que começou meses atrás, não dependo apenas da memória ou de procurar mensagens espalhadas entre Slack, Jira e documentos. Grande parte daquele contexto continua organizada e disponível.

Esse talvez tenha sido um dos impactos mais práticos da IA na minha rotina. Passei a perder menos contexto entre uma sprint e outra, consigo produzir documentação com muito mais facilidade e projetos longos deixaram de depender exclusivamente da minha capacidade de lembrar de conversas que aconteceram semanas atrás.

A IA acompanha todo o ciclo de engenharia

A impressão que tenho é que muitos desenvolvedores ainda utilizam Inteligência Artificial apenas durante a implementação. Ela entra em cena para gerar código, criar testes, explicar um erro ou sugerir uma refatoração. Embora isso seja útil, representa apenas uma pequena fração do trabalho de engenharia.

Na minha rotina ela participa muito antes disso.

Durante um discovery, utilizo a IA para organizar requisitos e identificar perguntas que talvez ainda não tenham sido feitas. Nos refinamentos ela me ajuda a estruturar cenários, analisar impactos e mapear riscos. Em discussões de arquitetura costumo explorar diferentes abordagens antes mesmo de desenhar uma solução. Durante a implementação continuo utilizando-a para revisar ideias, esclarecer dúvidas específicas e discutir possíveis melhorias. Depois que tudo está em produção, ela ainda participa de análises de incidentes, investigações, documentação e retrospectivas.

Inclusive, desenvolvi um agente que consegue acompanhar o contexto de um projeto durante todo esse ciclo. Em vez de iniciar uma nova conversa a cada etapa, mantenho um histórico contínuo. Isso faz uma diferença enorme, porque a IA deixa de responder perguntas isoladas e passa a entender decisões anteriores, restrições técnicas, objetivos do projeto e até discussões que aconteceram dias antes.

A sensação é muito mais próxima de conversar com alguém que acompanhou toda a jornada do que com uma ferramenta que recebe comandos independentes.

A IA amplifica competência, mas não substitui competência

Existe uma frase que resume boa parte da minha experiência utilizando IA: ela amplifica competência, mas não cria competência.

Quanto mais contexto eu forneço, melhores costumam ser as respostas. Quanto mais domínio tenho sobre determinado assunto, melhores são as perguntas que consigo fazer. E quanto melhores são as perguntas, mais rica se torna a discussão.

Isso significa que estudar continua sendo indispensável.

Continuo lendo documentação, investigando problemas, validando hipóteses e assumindo responsabilidade pelas decisões que tomo. A IA acelera esse processo, mas não elimina nenhuma dessas etapas.

Aliás, talvez esse seja um dos maiores riscos para quem está começando. É muito fácil cair na tentação de pedir soluções prontas para qualquer problema e acreditar que isso representa aprendizado. Na prática, muitas vezes acontece exatamente o contrário.

Quando utilizamos IA apenas para copiar respostas, deixamos de desenvolver uma habilidade que continua sendo essencial na engenharia de software: aprender a pensar sobre problemas.

A ideia de uma engenheira aumentada

Nos últimos anos ouvimos inúmeras discussões sobre a possibilidade de a Inteligência Artificial substituir desenvolvedores. Sinceramente, essa nunca foi a pergunta que mais me interessou.

Hoje acredito que a discussão mais importante seja outra.

Quem vai aprender a trabalhar junto com a IA de forma consciente?

Gosto muito da ideia de uma engenheira aumentada. Não porque a IA faz meu trabalho ou porque toma decisões por mim, mas porque ela amplia minha capacidade de investigar, organizar conhecimento, conectar informações e enxergar alternativas que talvez passassem despercebidas.

Essa visão também muda completamente a forma como enxergo quem está começando na área.

Se eu pudesse dar um único conselho para desenvolvedores iniciantes seria este: não utilizem a IA apenas para obter respostas. Utilizem-na para aprender a fazer perguntas melhores.

Peçam explicações em vez de apenas soluções. Comparem diferentes abordagens. Perguntem quais são os trade-offs envolvidos em determinada decisão. Peçam críticas à própria implementação. Descubram quais cenários ainda não foram considerados.

Transformem a IA em alguém que estuda com vocês, não em alguém que trabalha por vocês.

O código que ela gera pode até resolver um problema imediato, mas é a qualidade das perguntas que realmente constrói uma carreira sólida.

Considerações finais

Se hoje alguém me perguntasse qual foi a maior mudança que a Inteligência Artificial trouxe para minha rotina, eu provavelmente não responderia que escrevo código mais rápido.

Diria que penso melhor.

Consigo estruturar minhas ideias com mais clareza, preservar contexto durante projetos longos, documentar decisões de forma muito mais consistente e explorar diferentes caminhos antes de assumir uma direção técnica.

Talvez o futuro da engenharia de software não seja dividido entre quem utiliza IA e quem não utiliza.

Talvez a verdadeira diferença esteja entre quem a utiliza apenas para escrever código e quem aprende a utilizá-la para pensar melhor.

É nesse segundo grupo que pretendo continuar evoluindo. E espero que cada vez mais pessoas principalmente quem está iniciando na tecnologia descubram que a maior contribuição da Inteligência Artificial não é substituir engenheiros, mas ajudá-los a se tornarem profissionais melhores.

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